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Vila Pavão, Uma Pomerânia no norte do Espirito Santo

enviado por JORGE KUSTER JACOB

Vila Pavão é reconhecida como uma Pomerânia no Norte do Espírito Santo. Até a década de 1920, a região, localidade onde hoje é o município de Vila Pavão, era habitada pelos bravos índios botocudos. O município foi colonizado na década de 1920 por algumas famílias caboclas que fugiam da seca do sertão baiano e interior de Minas Gerais.  Em seguida, grandes madeireiros ocuparam a região para explorar a peroba, jequitibá, entre outras raridades da Mata Atlântica.
 Na década de 1940 chegaram os primeiros imigrantes pomeranos, entre estes, Franz Ramlow, que articulou a vinda de grandes levas de pomeranos para a sede do município: Praça Rica, Córrego Grande, Córrego da Peneira, Córrego da Lajinha, Rio XV,Córrego do Mutum, Córrego do Sossego, Córrego São Sebastião e Córrego do Estevão.  Algumas famílias italianas estabeleceram-se no Córrego das Flores, Córrego Grande, Córrego da Rapadura e Córrego do Paraíso.  No mesmo período também chegaram algumas famílias de descendentes afros no Córrego Santo Estevão, Todos Santos e Conceição do XV.
 Na década de 1970, Vila Pavão chegou a ter 80% de sua população de descendência pomerana quando o Espírito Santo pela primeira e última vez apareceu na Revista "Time" dos Estados Unidos.  Na década de 1980, houve uma grande emigração para Rondônia, quando chegamos a perder 40% de nossa população. Hoje tem aproximadamente 65% de descendentes pomeranos, 15% de italianos e 20% de afros, caboclos e outros.
Vila Pavão é hoje o segundo município mais pomerano do estado, o primeiro do norte do Espírito Santo e um dos poucos lugares onde vivem as comunidades mais pomeranas do mundo. Tese que pode ser comprovada quando 40% destes descendentes do município ainda falam a língua pomerana. Não temos no Brasil outros imigrantes onde tantos integrantes conseguiram perpetuar por mais de um século a sua língua nativa. Sabemos que através da língua são transmitidos e explicados costumes que no Espírito Santo, os descendentes preservam há mais de 100 anos. Aspectos relacionados a música, a culinária, a arquitetura, a religião, ao folclore, a vestimenta, a história e estórias, ao artesanato, a literatura, entre outros.
 Em Vila Pavão ainda podemos visitar casarões antigos pomeranos com a cozinha separada do resto da casa em cores azul e branco. Traços que começam a ser preservados nas reformas das escolas, na fachada da secretaria de educação, no museu municipal (o primeiro museu pomerano do norte do Espírito Santo) e até mesmo nas lojas comerciais como é o caso do Recanto Pomerano, na Chapadinha, entre outros.  Na culinária, centenas de famílias pomeranas em Vila Pavão ainda mantêm a comida típica do final de semana ("comida branca" à base de sopa com carne de galinha e macarrão, mandioca, batata doce e carás socados, arroz, batatinha ensopada, carne frita e arroz doce com leite ou sopa de pêssego como sobremesa) e nas épocas festivas. Brote que é chamado de michjabroud (pão de milho) adaptado ao clima tropical capixaba que pode sofrer outras adaptações com banana (bananabroud), com batata doce (batadabroud) e com mandioca (eipabroud), entre outras, faz de Vila Pavão a capital nacional do brote. Em épocas especiais como Páscoa, Natal e casamento, a culinária é enriquecida com o trigo, surgindo o brote de trigo (weitbroud), bolos, biscoitos, malucos, entre outros. A lingüiça defumada e vários tipos de carnes assadas também fazem parte da deliciosa cozinha pomerana. Uma associação de senhoras "Arte da Casa" está projetando um centro de comercialização da culinária pomerana, para comercializar não só os produtos no município, mas em toda a região norte do Espírito Santo, onde a procura é grande.
Na música, a tradicional concertina de Frederico Grinivald, Ernesto Pagung, Waldir Wutke, entre outros, continua animando casamentos, festas e eventos no município. Ainda temos o programa de rádio "Momento Pomerano", que vai ao ar todos os domingos das 7h às 8h da manhã, onde os apresentadores Jonas e Paulo Bohning tocam músicas, contam piadas e casos em pomerano. Jonas Böhning que também compõe e canta musicas na língua pomerana faz parte do conjunto musical "Up pommrisch" que acaba de lançar o primeiro CD com musicas em pomerana junto com Sergio Shultz e Osmar Volz.
A religiosidade pomerana é outra marca registrada tanto dos membros da IECLB como da IELB, onde a freqüência nos cultos é muito grande. A tradicional "festa da Igrejona", todos os anos, atrai muitos turistas de todo estado e até de Minas Gerais e Rondônia. O casamento pomerano em Vila Pavão ainda é um dos mais tradicionais do mundo. Um tradicional casamento pomerano começa meses antes com o cultivo de cereais e a engorda de animais, com o convite feito pelo irmão da noiva, declamado de casa em casa em versos. A festa costuma durar três dias. O local, por tradição na casa dos pais da noiva, é enfeitado para a festa com uma enorme mesa e um mastro com bandeira e vidros, com dinheiro em prêmio para o "tiro ao alvo". Ainda tem o baile do "quebra-louça" da quinta-feira à noite com uma ceia farta com "os miúdos", e na sexta-feira (que em pomerano é "Frijdach", dia de casar) temos o casamento propriamente dito com uma farta mesa com o "café pomerano" na chegada dos convidados que, recepcionados no portão enfeitado com folhas de coco com a musica "Ranashpel" da concertina, deixarão uma gorjeta para o tocador do evento e entregarão o presente da noiva na sala de presentes. Depois da volta da cerimônia religiosa é a vez do grande e recheioso almoço pomerano na enorme mesa onde os noivos sentarão na ponta sob um arco enfeitado e permanecerão até o último ter almoçado. A tarde é de fotos com a "dança das noivas" iniciando às 16h, em que, todos os convidados terão que dançar com a noiva (e dar uma gorjeta para pagar as cozinheiras) e todas as convidadas dançarão com o noivo, mas nada pagarão. Depois iniciará o grande baile, que irá até o amanhecer, quando será realizado o "tiro ao alvo" no mastro com os vidros com dinheiro, numa espécie de competição que, ao final, proporcionará ao noivo com um machado derrubar o mastro como sinal de que a festa acabou.
No artesanato podemos perceber a cultura pomerana nos móveis, como baús, armários e trabalhos em madeira. Um artesanato diferenciado com essa identidade começa a surgir e a ser comercializado no município.  Essa proposta de produção artesanal trás uma boneca típica pomerana, um bauzinho, entre outras, que retratam a identidade local. Recentemente, a artista plástica de São Gabriel da Palha, Vera Vervloet, retratou de forma inédita em cinco quadros a identidade cultural pomerana de Vila Pavão  e fez diversas exposições pelo Estado. Os quadros estão em exposição na Secretaria Municipal de Cultura, Esportes e Lazer. No município há também  dois livros escritos sobre nossa história e cultura . Um intitulado "A Imigração e Aspectos da Cultura Pomerana no Espírito Santo" do sociólogo pomerano Jorge Kuster Jacob e "Pommerochtied - um casamento pomerano no Espírito Santo" de Irineu Foerste e Jorge Kuster Jacob, bem como, o Jornal Pommerblad, o único do Brasil sobre a Cultura pomerana.
 Recentemente foi lançado o curta "Bate-Paus"(2005), filme de Jorge Kuster Jacob que retrata com depoimentos dramáticos a perseguição aos descendentes pomeranos após a II Guerra Mundial. O documentário participou e foi destaque em diversos festivais de cinema no Brasil, Alemanha, Holanda, Estados Unidos, México e Argentina.
A Pomerânia chegou a ser o "celeiro agrícola" da Europa em períodos remotos. Devemos destacar a grande importância da agricultura familiar que ocupa 78% da população pavoense. Ainda nessa atividade agrícola e na pecuária devemos considerar sua enorme produção caseira e artesanal. O Centro de Comercialização da Agricultura Familiar de Vila Pavão é modelo para o Espírito Santo e recebe visitas de estudantes, universitários e agricultores de todo o Brasil. O principal objetivo deste projeto é oferecer assistência técnica à diversificação, produção e comercialização agropecuária.
O município de Vila Pavão é um dos principais articuladores com Santa Maria de Jetibá do Projeto de Educação Escolar Pomerana/PROEPO da Secretaria Municipal de Educação com a autoria e assessoria da Secretaria Municipal de Cultura, Esportes e Lazer. O projeto consiste no ensino da língua pomerana como forma de resgate e valorização da cultura pomerana.
Participam do projeto os cinco municípios mais pomeranos do Espírito Santo: Santa Maria de Jetibá, Vila Pavão, Domingos Martins, Pancas e Laranja da Terra. Recentemente uma comissão foi criada no município para propor a co-oficialização da língua pomerana, o que facilitará a inclusão social e resgata uma dívida histórica para com esse povo que sempre esteve na informalidade. Realidade que começou a mudar com o lançamento do Dicionário Enciclopédico pomerano-portugês e do livro texto em pomerano de Ismael Tressmann para uso nas escolas dos cinco municípios mais pomeranos do Estado.
*JORGE KUSTER JACOB é secretário municipal de Cultura e turismo de Vila Pavão, sociólogo, professor e cineasta.

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